EUCLIDES DA CUNHA VERSUS MARIO VARGAS LLOSA
OS SERTÕES VERSUS A GUERRA DO FIM DO MUNDO
De acordo com os mais recentes conceitos que analisam a literatura de hoje e sua relação com a realidade, estamos vivendo um período de crise disciplinar, de empobrecimento da leitura do latino-americano, de procura de informações através do computador, da funcionalidade do conhecimento, do discurso roto com os grandes protagonistas da história que o nosso continente e o de terceiro mundo em geral estão vivendo aqui e agora na globalização dos excluídos, dos marginalizados, dos herdeiros da violência. Entenda-se nisso, por exemplo, os danificados do dilúvio de Caracas, os excluídos da tecnologia urbana, os invasores de terras no Peru, no Brasil, os desempregados e os novos migrantes que não tem sequer iconografia, não tem voz nem literatura. Trata-se de corpos nus, desfeitos, sem rosto, sem voz, num estranho anonimato que mostra algum tipo de fracasso do programa social, e que os mobiliza numa procura absurda, cruel e sem representação. Ou seja, a história que se forja com a saga migratória do desamparo, do grito dos moribundos. Os espaços que ocupam os corpos vivos são o bordel, o cemitério, o deserto, as ruas. Locais aonde o sujeito vai-se desintegrando. Trata-se do anti-herói, do sujeito pós-moderno que quando sobrevive o faz com total desarraigo do seu espaço e dos discursos. Em relação a tudo isso parecemos não ter, em América Latina, teorias literárias dominantes e vivemos uma etapa de incerteza e de perplexidade. O mundo globalizado, em suma, se divide hoje entre os cada vez mais excluídos e os poucos cada vez mais desconcertados e inseguros incluídos.
Dentro desse quadro, que parece um exagero, achamos que cada vez deve tomar mais importância o conceito estético do esperpento. Uma tendência que não é nova, que forma parte da evolução estética da Espanha desde a pré-história, desde a cultura oral, até o cinema de Almodóvar, e da realidade dos indivíduos do terceiro mundo. Incluindo em seu trajeto, a pintura, o teatro, a literatura e influenciando todas as correntes da modernidade e pós-modernidade. O esperpento é um antecedente de todos os ismos, do absurdo, da desestruturação textual, da ruptura da ilusão estética, da reivindicação da linguagem falada como modelo poético. E sobre tudo é a consolidação do anti-herói e dos artífices da criação artística deste século. O esperpento representa a atitude crítica do criador como um inadaptado à sociedade que lhe toca viver ou presenciar, como um autor que trabalha contra ou a margem da sociedade. O esperpento surge na história da arte e da literatura, justamente como um produto direto da deformação e da denúncia da desordem social, da violência exercida pelos poderosos; mostra o grotesco, o feio e o procaz, como parte de um processo de inquietude artística. Considerando esses conceitos, fizemos uma primeira leitura de Os sertões e de A guerra do fim do mundo, de Euclides da Cunha e de Mario Vargas Llosa, respectivamente, numa confrontação que toma como referência o esperpêntico da realidade em que se baseia a guerra de Canudos, e também alguns dos traços esperpênticos que ambos autores esgrimem para a gestação de suas obras.
Podemos ver a presença desses elementos esperpênticos nas duas obras mencionadas e em a realidade histórica de Canudos. Um exemplo da distorção da realidade que alimenta a narração histórico-mítica de Euclides da Cunha e que foi o fator que lhe deu a dimensão trágico-dramática ao episódio e também sua celebridade como escritor, a encontramos em a violência de Canudos que pode apreciar-se em várias dimensões (Francisco, Food Hardman,1997: 59):
a profunda “exclusão social” dos habitantes da comunidade sertaneja liderada por Conselheiro: pobreza material absoluta, desapropriação da terra e demais meios de produção, fatores que se atribuem à multidão de vencidos de Canudos; a enorme desigualdade de poderio bélico entre os sertanejos e o Exército nacional, principal esteio do novo regime republicano e armado com os melhores instrumentos e estratégias da industria e da engenharia militar; a brutal adversidade da paisagem semi-árida do sertão, capaz de produzir, por si só, escassez de gêneros, falta de objetos e meios para o trabalho de subsistência, abrigos e habitações precárias, obstáculos quase instransponíveis de comunicação; o relativo isolamento dessa sociedade camponesa aliado à própria desolação da paisagem formam um dos lados da condição trágica de todo movimento, que conduziria ao desfecho terrível da guerra e à destruição completa daquele arraial; de outra parte, civilização do litoral urbanizado, europeizado, branco e “modernizador”, constitui outro pólo de grande choque de culturas, o processo cumulativo de enganos, preconceitos, medo e desejo de eliminação do inteiramente inverso : “Incompreensível e bárbaro inimigo!”
Quando se pesquisa a história, quase um século mais tarde daquele destino trágico, que Vargas Llosa (1986: 45) considera um exemplo, ou seja, Canudos como um laboratório da América Latina, podemos ver, em patética miniatura, os problemas que afetaram os nossos países e dos quais ainda temos seqüelas. Observamos as diversas circunstâncias pelas que se viram divididos e lançados em guerras civis, repressões maciças ou mesmo matanças como a de Canudos, por cegueiras recíprocas dos bandos opostos. Vemos em clara perspectivas o fanatismo e a intolerância que pesa sobre nossa história. Em palavras de Vargas Llosa “em alguns casos, eram rebeldes messiânicos; em outros, eram rebeldes utópicos ou socialistas; em outros ainda, lutas entre conservadores e liberais. E se não era a mão de Inglaterra, era a do imperialismo ianque, ou a dos maçons, ou do diabo. Nossa história está manchada dessa incapacidade de aceitar divergências” (Idem: 45).
O que Hardman (1997:59) chama, emulando a da Cunha, “crime da nacionalidade”, lhe parece ter-se alastrado, como maldição, para todo o território do país. “O incêndio de Canudos espalhou-se por todo o campo e cidades. O vento levou as cinzas para muito longe, fora de qualquer controle. O grande desencontro de tempos dá-se hoje, simultaneamente, em muitos espaços. Essa é a grande herança dos modernos. Os avatares dos condenados de Canudos, em plena era da globalização, continuam a vagar sem nome, sem terra, sem história: são quase 60 milhões de pobres, parias e miseráveis esquecidos do Brasil”. Hardman– se pergunta :(quem é este gigante que dorme, enquanto seus filhos – os mais novos e os mais antigos – agonizam nas ruas e estradas?)”.
A realidade esperpêntica se da na miséria rural absoluta dos sem-terra que revive Canudos até hoje, mas revive também, sobretudo, na miséria urbana, suburbana e metropolitana das imensas cidades que concentram mais de 70 por cento da população total do país. Baste esse olhar rápido da realidade de ontem e de hoje para exemplificar a vigência do esperpento como base necessária para qualquer motivação estética própria do nosso continente. (Lembrar Valle-Inclán como gestor do esperpento como gênero crítico, a raiz da conscientização da trajetória esperpéntica da estética espanhola).
De qualquer forma, Euclides da Cunha e Mario Vargas Llosa se identificam em sua rigorosa atitude de repórter, em sua procura de denunciar as tendências conflitantes da realidade latino-americana. Passando por alto os aspectos críticos e polêmicos de ambos escritores – um Euclides racionalmente convicto de suas crenças em raças superiores e inferiores, ou um Vargas Llosa reacionário para alguns gostos mais radicais – temos que reconhecer que em suas obras podemos encontrar muitas chaves esclarecedoras dos nossos problemas atuais, e particularmente, nos retratos que nos dão da massacre de Canudos e dos sertanejos. Vargas Llosa diz algo que ilustra muito bem esse ponto de vista: “A única antropologia que vale é a literatura”. E tanto sua obra, como a de Euclides, nos mostra que a literatura é, acima de tudo, a reelaboração de uma realidade. Se Euclides da Cunha permite uma visão excepcional, única, grandiosa da guerra de Canudos, através da prosa poética de Os sertões, que nos mostra a terra, o homem, a luta, e por sua repercussão, Vargas Llosa entra no palimsestes desse episódio, é, pela sua vez, graças a sua obra A guerra do fim do mundo, que o romance, pela primeira vez em América Latina, introduz uma consciência histórica, um sentido de liberdade inédito até então. Justamente, Vargas Llosa sentiu-se fascinado pela leitura de Os sertões até o ponto de escrever outro romance, seu favorito, e ao que dedicou quatro anos até conseguir-lo, porque, além de todas as possibilidades e conflitos que a narração possui, há uma segunda e inclusive uma terceira leitura, que tem a ver com um dos mais claros perigos vividos do primitivismo político de nossos países, o sincretismo da ideologia e da religião, a confusão de sentimentos irracionais enquistados no pensamento de certos líderes, com uniforme militar ou com hábito religioso, que impliquem ou possam implicar revoltas, barbárie, incivilização e mortes, tiranias de corte político, cultural ou econômico. Ou todas ao mesmo tempo, como já aconteceu e como acontece.
Outros aspectos esperpênticos que aparecem em ambas obras e que podemos citar a modo de exemplo, se dão no perfil do sertanejo como o anti-herói e sua condição de marginal, começando pelo próprio Antonio Conselheiro. Seja na epopéia trágica de Euclides, seja na ficção de Vargas Llosa, o personagem se apresenta cheio de contradições e contrastes, como é próprio do esperpento . Euclides o descreve como “foco de contrastes: valente, mas supersticioso; forte, mas abúlico; generoso, mas fanático”. Alfredo Bossi comenta que com essas contradicções que o escritor brasileiro assinala, lançou as bases para a interpretação do fenômeno de Canudos, encontro histórico de raças e meios diversos: o sertanejo rebelde, mas impotente, contra o homem do litoral, branco ou, se mestiço, “condenado à civilização” (1993: 14). Bossi explica ainda, que “a vida de Antonio Vicente Mendes Maciel e a história do arraial formavam para Euclides peças de um só conjunto, enquanto expressões da religiosidade sertaneja. O Conselheiro, cuja biografia até Canudos poderia ser apenas a de um infeliz mas vulgar foragido da lei, ou de um louco perdido em seus delírios proféticos, assume, a partir da fundação do arraial em pleno sertão, o papel de homem-síntese de uma realidade social e religiosa, a condição do sertanejo pobre. Ele é um marginal, como boa parte da plebe que o rodeia. Ele desconfia das autoridades, mas nada leva os seus companheiros a crer nesse poder distante e hostil. Ele espera um futuro melhor que há de vir mediante a ajuda sobrenatural, e outra esperança não pode alimentar os seus jagunços. O Conselheiro é o homem da Providência e, como tal, preenche uma função na economia espiritual do sertão”.
Bossi acrescenta que “o Conselheiro será, sempre, o fruto mórbido de uma cultura propensa à desordem e ao crime. Como a sociedade que o produziu, ele tende a reviver esquemas regressivos de conduta e de linguagem.
Por outra parte, José Miguel Oviedo (1981: XII), classifica Os sertões, como um dos livros capitais da literatura não só brasileira, senão latino-americana, e lhe confere a condição de esperpêntico quando destaca sua ambigüedade, quando se refere a ele como um livro “monstruoso, um híbrido indefinível, inclusive para seu próprio autor”, diz também que A guerra do fim do mundo é um palimsesto, uma superposição de inúmeros textos que giram ao redor de um eixo central: Os sertões. E chama a atenção sobre as convergências que enlaçam os personagens de Vargas Llosa na obra: a monstruosidade física que caracteriza Leon de Natuba, como um ser deforme que caminha em quatro patas balançando sua cabeça enorme; e o anão, sobrevivente de um circo que se dedica a contar histórias fantásticas; a figura esquisita do jornalista, que é o máximo interesse de Galileo Gall, com suas teorias sobre anatomia e suas medições cranianas, o personagem de ficção que Vargas recria inspirado num pesquisador real europeu. Lembra que da Cunha começou explicando o fenômeno de Canudos como o resultado de uma mestiçagem degenerada, que deu como resultado tipos deformes, fanáticos e supersticiosos. Entre ambas obras se dá toda uma confabulação de elementos reais com história e elementos ficcionais nos quais da Cunha é protagonista, autor, e personagem. Em A guerra do fim do mundo Euclides está de certa forma esperpentizado por Vargas Llosa. O escritor peruano o recria num periodista míope, ridículo, um homem insignificante, uma espécie de fantoche, cobarde, atacado por nervosos espirros, com gestos de títere e uma voz aguda. Mas, também mostra sua outra cara, a do fiel jornalista que chega até o sacrifício na causa de Canudos. Ou seja, a ambivalência e a harmonia dos opostos num mesmo sujeito, rasgo tipicamente esperpêntico. Vargas Llosa nesta esperpentização do autor de Os sertões pratica o que se tem chamado uma espécie de canibalismo literário. Muitas dessas características do personagem não correspondem a dados biográficos de Euclides, mas permitem, na ficção, marcar aspectos que Vargas Llosa deseja destacar: essa incapacidade de ver objetivamente a realidade e a incapacidade de atuar frente dela.
Outro exemplo de esperpentismo encontrado em A guerra do fim do mundo, aparece em a amizade entre o jornalista míope e o anão, que é fruto do reconhecimento de uma comum condição marginal, onde beleza, amor e prazer estão ausentes:
Por culpa desse nariz e dessa miopia havia tido entre os braços às putas de Bahia, conhecido esses amores mercantís, rápidos, sujos, que duas vezes pagou com purgações e curas com sondas que o faziam uivar. Ele também era monstro, tolhido, inválido, anormal. Não era acidente que estivesse onde haviam vindo a congregar-se os tolhidos, os desgraçados, os anormais, os sofredores do mundo.
Podemos observar muitos outros traços esperpênticos na concepção dos personagens. Este é só o início de um trabalho que deverá culminar numa pesquisa mais detalhada sobre o esperpento e sua projeção na literatura latino-americana. Finalmente, da idéia que Vargas Llosa desenvolve, segundo ele mesmo, em sua obra mais acabada e total, de que mente para dizer verdades e de que não se consegue explicar nada através da literatura; mas que ao mesmo tempo a literatura é a melhor antropologia ; por outra parte, que a história nos ensina que nada nos pode ensinar, chegamos a uma conclusão que já Euclides colocou na prática em sua obra prima através do dialogismo, a antítese e o oximoro: só podemos pretender obter alguma noção da realidade na leitura das grandes contradições que apresentam os escritores, com suas próprias contradições e suas limitações. Ou seja, sendo esperpênticos, como é a realidade, como são a arte, a história e a literatura.
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